IA nas Eleições: especialista explica como reconhecer vídeos manipulados
Alto nível de realismo dificulta identificação de imagens falsas; TSE proibiu uso de deepfakes para propaganda eleitoral
Imagem META IA Entre as ferramentas disponíveis, estão o chamado face swap — que permite alterar o rosto de uma pessoa e sincronizá-lo com a fala —, a clonagem de voz e a modificação dos movimentos humanos. Também é possível remover pessoas e objetos ou inserir novos elementos na cena.
Segundo Daniel Ohata, professor especialista em IA do curso de Engenharia da Computação da UniFacens, identificar esse tipo de conteúdo não é uma tarefa simples, e a dificuldade aumenta conforme a qualidade da manipulação. “Existem ferramentas que tratam muito bem as imagens e, se a pessoa tiver um cuidado maior para manipular tanto elementos visuais quanto sonoros, fica bem difícil identificar a manipulação”, explica.
Alguns sinais, no entanto, podem ajudar nessa análise. Problemas na sincronização entre o som da fala e o movimento da boca, movimentações incomuns e falhas na reprodução de mãos e dedos são alguns dos exemplos citados por Daniel. Outros detalhes, como dentes, olhos, cabelos, objetos e elementos ao redor da pessoa central também podem apresentar inconsistências.
“Geralmente, quando a IA reproduz, ela foca muito no personagem central, mas pode falhar ao tentar replicar os demais elementos. Ela pode, por exemplo, eliminar, sumir ou multiplicar alguns itens”, afirma o professor. Por isso, é fundamental observar não apenas o rosto da pessoa central, mas também o enquadramento e o que acontece ao redor dela.
De acordo com o especialista, atualmente, existem ferramentas que utilizam a própria inteligência artificial para tentar detectar conteúdos manipulados, mas esses recursos também estão sujeitos a erros. Segundo ele, a probabilidade desses mecanismos identificarem corretamente se um vídeo foi produzido ou alterado por IA é de cerca de 80%.
Com o objetivo de combater a propagação de fake news, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu o uso de deepfakes em propagandas eleitorais. Porém, a medida consegue coibir apenas vídeos transmitidos pelas redes oficiais dos candidatos, enquanto controlar imagens produzidas pelos eleitores em geral se mostra muito mais desafiador devido aos recursos e às leis existentes atualmente.
Além das deepfakes, o professor chama a atenção para uma forma mais antiga de manipulação: a edição convencional de vídeos. Cortes e mudanças na ordem das falas podem retirar uma declaração de contexto e alterar completamente o sentido do vídeo, sem que qualquer recurso de inteligência artificial seja utilizado.
Para evitar cair nesse tipo de desinformação, a recomendação é verificar a origem do conteúdo. O usuário deve procurar o canal oficial do candidato e conferir se a gravação original está disponível. Também é importante verificar se a informação foi divulgada por veículos jornalísticos confiáveis. “Sempre observe quem publicou, leve em consideração apenas veículos oficiais. Dê uma olhada no canal da pessoa ou veículo que fez a publicação e perceba se o perfil está publicando outros vídeos que tenham essa tendência de IA”, orienta Daniel.
O professor pede ainda mais cuidado com conteúdos que provocam reações mais intensas, como raiva, medo, surpresa ou indignação. Esse tipo de vídeo tem maior potencial de viralização e exige uma checagem mais minuciosa. “A desinformação costuma funcionar justamente porque ela provoca essas reações de emoção antes da reflexão”, afirma.
Daniel ainda reforça que o compartilhamento sem verificação contribui para aumentar a propagação de fake news e faz um apelo: “Nunca repasse qualquer vídeo desse tipo se você não pesquisou e não sabe a procedência das informações. Fazer isso é como espalhar uma doença. As pessoas vão consumir e, automaticamente, vão passar para a frente sem entender e sem investigar se aquilo é verdade ou não.”
A principal orientação, portanto, é conter o impulso de compartilhar e, antes de mais nada, verificar a informação. “É fundamental questionar se aquele vídeo é necessariamente verdadeiro só porque parece real”, aconselha o especialista. “Hoje, o que eu posso recomendar é: não confie em nada do que você vê na internet. Infelizmente, nós chegamos a esse grau. Temos que investigar e nos aprofundar antes de repassar qualquer informação”, encerra.





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